Amor & Perdição
O perigo de ser amada por um homem
Um dos fantasmas que mais assombram as mulheres é o amor.
O tão estimado “felizes para sempre”.
Peço licença para trazer um pouco de densidade a esta leitura, porque, diante de tantos eventos trágicos que envolvem mulheres, amor e violência, eu não poderia simplesmente vedar os olhos.
Então mantenha os seus bem abertos.
Confesso ser uma amante nata. Eu amo amar; sou romântica incurável. Acredito em finais felizes, em entrega de si, em envelhecer juntos…
Mas a palavra amor nem deveria ser mencionada quando há qualquer ameaça à integridade emocional e física de alguém.
O que vemos no noticiário é uma distorção de algo tão belo: o amor sendo isca para a posse e a dominação.
O amor tudo aceita? Tudo suporta? Até onde podemos perdoar tudo por amor? Até a perdição de si para ganhar o paraíso? Esse “tudo” inclui o autossacrifício em prol da satisfação perversa e pessoal do outro?
Honestamente, esse discurso passa por tantas interpretações que não chega com clareza para todo mundo.
Acredito que aprendemos a moldar as faces do amor de acordo com nossas crenças e experiências. E tenho a sensação de que há crenças diferentes para homens e mulheres.
Eu cresci em um lar católico e tenho a impressão de que recebi orientações diferentes dos garotos católicos que conheci ao longo da vida. Porque, enquanto eu aprendia que deveria me guardar para o casamento, ninguém preparava os meninos para lidarem com seus desejos.
Na minha época, era uma febre o tal do “namoro santo”. Aprendíamos a esperar, confiar, a perdoar… aprendíamos a idealizar uma vida baseada na escolha do outro. No entanto, essa crença cega de que eu poderia confiar no “homem certo” me custou muito caro.
Será que isso pode ser diferente nas próximas gerações? Podemos mudar essa realidade na forma como educamos os nossos?
Observando o burburinho nas redes sociais sobre o quão tem sido complicado conseguir e manter um relacionamento, frequentemente me pergunto se essa crise não seria o começo de uma revolução positiva na nossa forma de nos relacionarmos.
Será que a crise do amor moderno tem relação com o entendimento de que talvez as pessoas não precisem suportar tudo em nome do casamento?
Bem, eu espero que seja.
Mas, voltando ao fantasma principal, quero trazer para a leitura uma citação de Bárbara Bom Angelo, em seu artigo Extra #81 - Queria ser grande só para apoiadores:
1. O amor de um homem pode ser a coisa mais perigosa a acontecer a uma mulher.
3. […] Os homens amam quase sempre sem preocupação. As mulheres não. São tantas as histórias que ouvimos, tantas as que presenciamos. É preciso vigiar o próprio amor, ter o máximo de certeza de que é seguro. E ainda assim, estar pronta para caso ele se transforme num monstro, caso ele se vire contra nós. […]
Ciúme, controle, possessividade e poder são confundidos com amor todos os dias:
nas mesas de família, nos discursos religiosos, nas relações mais íntimas.
Ao longo da história, mulheres foram ensinadas a cultuar o amor romântico como um ideal supremo. Mais desejável que autonomia. Mais valorizado que independência financeira. Mais venerado, muitas vezes, do que o próprio Deus.
Não se trata de biologia. Mulheres não são naturalmente propensas a aceitar tudo por amor. Elas foram condicionadas a isso, porque amar “do jeito certo” sempre ofereceu status, pertencimento e validação social.
Uma cultura sustentada, inclusive, por mulheres que ainda não perceberam a manipulação silenciosa por trás dessa crença.
Quando um sistema não consegue controlar pela dependência material, ele controla pelas paixões.
E é por isso que, mesmo hoje, com tantas mulheres financeiramente independentes, muitas ainda permanecem presas ao que acreditam que o amor deve ser.
Aqui, falo exclusivamente do amor que se transforma em risco. Do amor que ameaça a integridade física e emocional da mulher. E a verdade é dura: quase sempre é um risco.
Mulheres não podem se dar ao luxo de amar sem vigilância. No Brasil, os casos de violência contra mulheres seguem em níveis alarmantes, com crescimento em diversos recortes recentes. Mulheres mortas por parceiros ou ex-parceiros. Dentro de casa.
Cada número é uma história que nunca deveria existir.
A violência não começa no golpe final. Ela começa disfarçada de cuidado e controle. Começa quando alguém questiona suas escolhas, define seus limites por você, reduz seu mundo.
Se alguém te faz sentir culpa por simplesmente ser quem você é, esse alguém não deveria ocupar espaço na sua vida.
São tempos sombrios para algumas mulheres, e eu confesso não ter uma devolutiva concreta para essa questão.
Espero que este possa ser um espaço para criarmos consciência de que essa pauta é real e tem crescido debaixo dos nossos olhos.
Então, estimável ghostly, mantenha os seus olhos bem abertos. Eu manterei os meus.
Esse foi um daqueles fantasmas que eu evitava há um bom tempo. Mas nada como encarar nossa própria sombra para ganhar um pouco de coragem né?
Te vejo no próximo episódio.
Referências:
FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Anuário Brasileiro de Segurança Pública. São Paulo: FBSP, edições anuais. Disponível em: https://forumseguranca.org.br/anuario-brasileiro-de-seguranca-publica/
INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA (IPEA); FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA (FBSP). Atlas da Violência 2024. Brasília: Ipea; FBSP, 2024. Disponível em: https://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/
BRASIL. Ministério da Justiça e Segurança Pública. Violência contra a mulher: casos de feminicídio recuam 5% em 2024. Brasília, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/mj/pt-br/assuntos/noticias/violencia-contra-a-mulher-casos-de-feminicidio-recuam-5-em-2024
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Estatísticas de segurança pública. Rio de Janeiro: IBGE, 2024. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/
ONU Mulheres. Relatórios sobre violência contra mulheres. Disponível em: https://www.unwomen.org/




